13 Junho 2009

sentar

há muito que se dizer
sobre o amor e o arrepio,
sobre a atração e o aninhamento
sobre as danças que nossos pés conduzem
e os laços que nossos caminhos fazem

há muito que se dizer
sobre a carne e a fome
sobre as asas dos pássaros
e sobre os passos rápidos do cervo
fugindo ao primeiro timbre estranho.

há muito que se dizer, meu amor
sobre mim e sobre ti,
sobre nós,
e sobre todos os que nos rodeiam,
conosco rindo e chorando,
hora tão juntos, hora tão afastados,
hora destoando.

há muito que se dizer, nós sabemos,
mas também há muito que se ouvir
no bramido que soa por detrás das vozes.
há muito que se sentir
sem que se espere que palavras solucionem.

te convido amor,
a juntos sentarmos
uma tarde qualquer em nossas vidas
para que tentemos ver, juntos,
tudo aquilo que não se pode dizer.

falcon 120609

26 Dezembro 2008

horizonte

em frente à longa
linha que nos rodeia,

ao grande círculo
que à nossa vista
tange,

à grande língua
que lambe, do mundo,
a beira,

subiram coqueiros
sobem concretos
e hão de subir cordilheiras.

mas lá nos campos nus,
lá de fronte ao mar,
é lá
que nos ocorre lembrar:

algo te esconde
mas nada te apaga

borda do céu,
lábio da abóbada.


falcon 251208

25 Dezembro 2008


Andes, coluna da América,
onde realmente inicia teu cérebro?
onde finalmente termina teu cóccix?
em que ponto, crucial
se invertem tuas massas:
cinzentos por
brancos?

Andes,
vértebra por vértebra,
que peso tens segurado
séculos a fio.
coluna de Atlas
a segurar horizontes.

e apesar de tudo, Andes,
se manténs em pé,
rijo.
qual uma cordilheira.


falcon 251208

14 Novembro 2008

árvore

granada verde
escapa do chão

se espreguiça
grita
explode
tomando todo o ar

desata
desenovela
lento
- que é de outro tempo -

para que seu fogo
brilhante
desatento
outras granadas
venha espalhar no vento



falcon 141108

30 Agosto 2008

uma flor

uma flor brota em minha carne
a todo dia que nasce
e por vezes
a cada hora que passa.

uma flor goteja
em mim
impaciente com as ampulhetas

sem clemência
-que não conhece desses nomes-
brota em minha carne.

uma flor
flor de som
flor de luz
flor de barro
flor de ...


uma flor por acaso
posto que é bomba
________é estrela
________é tecido que rasga
________é glândula que espirra
e não é, não há nada
_______a________que lhe abarque
_______a________que não sobre

uma flor brota em minha carne
cujas pétalas,
destacadas de seu roto botão,
um tanto esquecidas,
um tanto inventadas,
me saltam na boca
se movem nos músculos
me param
me seguem

uma flor brota...
flor de Vênus
flor de cal
flor de bosta

uma flor brota em minha carne
e por mais que procure
com olhos e tatos
com filosofia e mecatrônica
nunca consegui achar
ao certo
a cor de seu caule
que nome vou dar?

uma flor
sem nome
sem cor
me come
me toma
me tenta
me faz

uma
flor
brota
-indizível-
em
minha
carne


falcon 300808

12 Agosto 2008

eu só tenho essa canção

eu só tenho a oferecer
a minha carne que falha
essa minha mão que cai
esse meu olho que pisca
vez em quando

vez em quando eu sou dragão
e meu fogo em ti se espalha
vez em quando eu sou navalha
correndo na tua mão

vez em quando eu sou vulcão
e meu corpo em ti se espalha
vez em quando eu sou navalha
correndo da tua mão

falcon 120808

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11 Agosto 2008

o evitar parar tem um irmão agora...

  • My Sweet Plágio

  • poemas de outros...

    07 Agosto 2008

    Declare

    Por favor amor
    fala...
    que eu quero o teu verbo
    a tua palavra
    o teu silêncio.
    Me diz as tuas portas abertas,
    me cala tuas portas fechadas.

    Fala...
    por favor amor!
    Me comprometa teus passos
    e o compasso de tua valsa.
    Me mostra a tua dança
    teu ritmo certo ou incerto.

    Porque pra mim
    não há nada mais que tua voz
    sob o signo de nossas mãos dadas.
    Porque tudo é declaração
    no tom da tua balada.

    Fala...
    e não me interessa sua indiferença,
    a boca fechada
    o olhar distante.
    Quero o teu mais sincero grito
    a tua mão na minha cara.

    Quero sua companhia,
    sua forma de falar
    e não dizer nada.
    Quero sua pausa
    seu momento de hesitar
    e dizer tudo.

    Porque pra mim amor
    andamos sempre juntos
    a mesma calçada
    nadamos a mesma corrente
    e no mesmo mar
    a gente naufraga.


    Lee Flôres Pires

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    02 Agosto 2008

    há copos e xícaras sobre a mesa
    borrados de carne e cerveja.

    há a cerveja
    e cigarros sobre a mesa.

    há na ponta do cigarro
    uma flor vermelha
    que arde sua vida em 10 minutos
    e que só se sacia com tua boca.
    existe.

    há corpos em volta da mesa,
    e um verso perdido
    que nenhum peito cala
    e nenhuma boca fala.

    há um verso perdido
    nas ruas
    e nas mesas

    há solidão.

    muita.

    noite a dentro,
    vida a fora.

    falcon 020808

    28 Julho 2008

    calma

    gritou calma
    algo aqui dentro
    enquanto as bombas chiavam
    e, como flores fugazes,
    desabrochavam num beijo
    tudo ao seu redor

    enquanto a terra se abria
    calma algo me pedia
    e eu compreendi
    e aceitei

    enquanto os mares revoltos
    gritavam seus regurgitos
    e os céus balançavam
    lançando estrelas
    qual bolas de fogo

    enquanto as ventos
    ganhavam fôlego e corriam
    derrubando homens e vegetais
    e a atmosfera
    de chuvas
    quase tornava um oceano

    algo pedia calma em mim e
    relutante,
    aceitei,
    buscando a sobriedade

    tua mão ausente
    desordena meu mundo,
    mas tudo há de retomar seu prumo
    tão logo o dia amanheça.


    falcon 280708

    27 Julho 2008

    comum

    chovia quando da despedida
    a metáfora recorrente das lágrimas,
    do banho que tudo limpa.
    foi tudo tão previsível
    que tomou os tons mais comuns possíveis

    nada de novo
    as pessoas continuam seus passos
    e amanhã não haverá mais chuva
    ninguém estará molhado

    haverá de chover
    ainda
    outros dias

    sobre mim,
    sobre ti
    e sobre tantos outros

    e da chuva
    por fim
    guardar-se-á a memória
    comum
    de seus sons de estalos
    de tudo tão cinza e turvo
    de seu gosto doce
    escorrendo na pele

    guardar-se-á por fim,
    sem magoas do frio,
    a imagem de um quadro

    belo e
    sobretudo
    humano


    falcon 270708

    jardim

    no fosso
    grave e escuro
    que teu ser me apresentou
    lancei minhas mãos
    a ver onde davam

    apanhei algumas flores
    meio murchas
    que reguei e
    em que ainda cultivo
    a preocupação para que não morram

    lancei doutra vez
    ao teu fosso
    meus olhos
    a ver onde davam
    e eles ainda lá encontravam
    um grave e escuro
    fosso

    apanhei um sorriso
    meio medo
    que meus gestos
    buscaram acolher
    e onde ainda cultivam
    a preocupação pra que não morra

    retorno ao fosso
    em meu corpo aberto
    ansioso ao que encontrar
    e ainda cavo,
    e por mais que cave,
    grave e escuro o é.

    me abraça um corpo
    numa paixão quase desespero
    que não sabe onde vai
    -atordoado-
    e cujas minhas mãos
    tentaram acalantar
    de preocupação para que nunca morra

    mas não sou jardineiro
    -improviso-
    e quanto às coisas,
    elas existem além de mim.

    encaro o mundo
    e minhas mãos
    pequenas
    mal arriscam vencer

    à tua sorte lanço
    meu gesto vago e inseguro

    não sou jardineiro
    e impotente,
    olhos cálidos ao mundo,
    acompanho, iludido,
    à sorte das flores


    falcon 160708

    20 Julho 2008

    evitar parar.

    a Piaf.
    há de se fazer os cálculos.
    há de se acertar ponteiros.
    há de ver quanto que custa,
    e não importa,
    há de se pagar o preço.

    há vida.

    há de se evitar parar
    o pulso e as corredeiras;
    os passos e mais o que gira;
    a violência que há em acordar.

    há de se evitar parar
    a voz do palco
    e a da platéia;
    as palmas fortes
    e mesmo às fracas.

    há de se evitar parar
    o teu beijo,
    tua mão na minha
    carne
    à carne,
    peito ao peito;
    as juras que não se cumprem.

    há de se evitar parar
    a mão que levanta
    e os olhos que brilham;
    as vozes que cantam
    a mão que levanta.

    há de se evitar parar
    mesmo que a conta não bata
    ou que a matemática não valha a pena;
    mesmo se o relógio cansar
    de contar seus doze contos pequenos.

    há de se evitar parar
    mesmo que o show acabe;
    mesmo que o universo duvide;
    mesmo que você parta;
    mesmo que você morra;
    mesmo que o sangue cale
    a mão já caída.
    é a vida.

    há de se evitar parar
    porque a vida não hesita.


    falcon 200708

    13 Julho 2008

    não sei

    ao teu lado não sei
    se sou só ilusão
    se sou corda de aço
    ou fio de algodão


    meu bem você trançou
    bem seus cabelos hoje?
    ou quando cê sorrir
    o seu brilho vai me cegar?
    ou tudo em tua volta
    se expande e depois se arrebenta?

    ou teu beijo aquela noite
    contou mesmo tudo que há,
    e olhando dentro dos teus olhos
    também estão a me indagar?


    ao teu lado eu não sei
    se tenho tudo à mão
    se sou beijo e abraço
    ou se tomo a amplidão


    pois tu sabes que eu canto
    a cor da tua presença
    e o vento que me gela
    por dentro só por te olhar
    e o gosto da tua boca
    e o teu cheiro de azeite

    e o conforto de tua carne
    do teu braço a me atar
    do teu colo que me completa
    e em ti de tudo mais que há.

    meu bem você trançou
    os seus cabelos hoje?
    mas vai saber lá eu
    o que em tua cabeça dá?
    se são fios de aço
    que constroem tua cabeleira

    ou se é corda de algodão
    será que logo acabará?
    será que é vento de paixão
    será que é rota de durar?


    falcon 190608

    30 Junho 2008

    Tua ausência

    sei que a tua ausência
    há de trazer o desmoronamento da aurora
    no fosso negro em que a noite se guarda
    por frio

    há de encher o corpo
    de desejos perdidos
    e a boca da saliva
    despatriada do teu seio

    há de pintar quadros sem contornos
    textos sem fala
    e vias sem pés nem rodas
    - liquedar as fronteira

    há de parar a razão das pedras,
    residente na força das chuvas,
    dos mares, dos ventos
    e na instabilidade emotiva do tempo,

    espalhar pelos campos
    uma cantiga que atente todas as coisas,
    pessoas, bichos e máquinas

    e parar, nem que por um instante,
    o movimento do cosmo
    em suas trilhas já desgastas,
    parte por parte,
    até que o lamento tome o todo
    vendo-se em mim

    afastado de ti

    meu corpo há de reclamar teu cheiro
    na confusão de odores da aleatória
    mistura que é a atmosfera e seus caldos.

    e lembrar teu testo, teu gosto, teu jeito
    sem pedir motivos ou razão de ser

    minha mente e minha boca
    sem teu parâmetro
    hão de transgredir os sensos
    exagerando palavras e gestos
    -perdendo o tino
    e a métrica-
    e construindo poemas gigantes
    de letras e versos miúdos

    tua ausência,
    há de me incompletar
    dia a dia
    escavando suas dores

    e eu quem, cansado
    me guarde os retalhos
    e te espere o retorno.

    falcon 300608

    19 Junho 2008

    Esborro

    dos meus dedos
    correm palavras que não cabem.

    deságuam desajeitadas
    sobre qualquer chão
    por vezes
    sem nem busca de tradução

    caem maiores que qualquer coisa
    que possa tê-las chocado.

    desenho borrado,
    tinta a granel,
    que não se contem
    e se espalha,

    ramifica no papel
    na ânsia de traduzir-se,
    enraíza na terra
    na ânsia de germinar-se,
    aspira,
    o longo ar que escreve

    esborra

    falcon 190608

    06 Junho 2008

    meu torrão de açúcar
    tua caneca de café

    por maior distância
    querida
    no menor toque
    me bebes
    inteiro
    num longo gole.


    com teus dedos
    fluídos
    me abraças o corpo
    me corres as entranhas
    me nublas o alvo

    e aí
    já não há volta
    não sei ser sem ti.

    para vanessa
    falcon 060608

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    08 Maio 2008

    siamês



    às lagoas mundaú e manguaba; ao povo que a rodeia



    duas irmãs siamesas:
    quase velhas,
    mãos dadas
    passeiam junto ao mar,
    desaguadouro de seus reclames

    senhora dama
    uma cabeça
    dois corpos
    uma mesma chama
    uma mesma lama

    de sua boca
    verte-se água
    e mágoa com cheiro de enxofre
    vertem-se peixes
    e homens em suas canoas
    derramam-se sonhos e ventos
    e por ela bebe o sal
    - minério do tempo -
    que vai a beber toda lagoa

    sobre seu leito se vergam todas as coisas
    as árvores
    os barcos
    os barracos
    os abraços
    as fomes
    a fome
    teu nome e meu nome

    verga o tempo em seu longo plano,
    em suas rochas
    se convencendo de tu’água,
    e por ela se deixando sorver

    tudo em tua órbita entorta,
    e quem fugiria de tua visceral gravidade?

    das flechas que em ti nadam
    das veias que em ti falam
    brecha-te o homem
    os pés nas suas margens

    e na saga de sua vida
    na sua busca te abre feridas
    que, antes de tí, habitando nele,
    já minguavam sangue

    cada veia tua
    que se expõe e sangra
    é também uma chaga aberta
    na margem do margeante

    e não sabendo o que lhe atinge,
    o que fazer,
    resta-lhe só o grito
    disforme.
    homem, siamês errante

    é por falta de mãos que te bate
    é por falta de bocas que te come
    é por falta de rumos,
    por falta de escolhas,
    que te escolhe como te escolhe

    é por falta de versos que me envergo
    senhora dama
    uma cabeça
    dois corpos
    uma mesma chama
    e te corro à mão
    uma prece moldada na lama


    falcon 080508

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    17 Abril 2008

    inútil

    quis fazer uma poesia para ti
    que te falasse tudo
    como fala uma espada que cruza a carne frouxa
    ou grita um abraço que ata

    quis te compor uma canção
    que tomasse teu ser
    e te enchesse da agonia boa
    com que as tartarugas buscam o sal
    ao sair do ninho

    quis te escrever um canto
    onde a terra e os astros
    cantassem a sinfonia do universo
    só pra ver espalhar teu sorriso
    tomando o chão e o espaço

    quis construir um poeta
    que te cobrisse e esquentasse
    como a restinga protege a praia
    do frio da brisa e do mar insistentes

    quis escrever versos como dias
    para que com sua inevitável voracidade
    derrubassem de seu tacho de cobre
    toda a vida sobre tua pele

    quis te contar palavras
    que, como ondas do mar,
    perpetuassem em seu ouvido
    sempre uma forma nova
    e nunca te permitisse parar

    quis te riscar linhas
    que, como dedos, corressem tua carne
    suaves como as nuvens voam
    e firmes quando tu, calada, chamasse

    quis esconder entre as letras
    uma melodia
    que te pegando a mão
    te dançasse
    como nunca minhas pernas souberam exatidão,
    como nunca houve par

    quis um poema que antevisse
    cada tua próxima ação
    e te surpreendesse dia após dia
    até que todas tuas guardas
    caíssem

    quis algo nunca feito
    (meu poema te conquistar por inteiro)
    pra que você visse
    que há vida, há tempo
    e depois nada há

    quis fazer um poema pra te conquistar
    mas o tempo passou
    a carne não viu o toque
    e o poema virou apenas letras
    e lamentos

    inútil



    falcon 170408

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    14 Abril 2008

    teus olhos de vento

    onde se escondem teus olhos?
    por traz de que nuvem?
    no calabouço de que navio?
    dentro de que concha rósea se esconde?
    no fundo negro de qual negro rio?

    onde se escondem teus olhos?
    pois o fulgor do seu brilho
    anda a gritar por todo o lugar.
    nos louros cabelos e dentes dos milhos.
    no grosso sal que bebe todo o mar.

    na fina cera da copa das árvores
    que abraça o céu, que se deita no ar.
    na armadura do duro besouro.
    no espelho do lago que imita o luar.

    onde se escondem teus olhos?
    na ambulância que passa
    pondo a cantar suas cem sereias?
    ou num dos cem sóis que ardem em meu peito
    e nele liberta os touros de suas correias?

    estão nos diamantes perdidos
    no fundo do grosso negrume das grutas?
    se fizeram engolir pelas gargantas dos bosques
    e lá se esconderam no mel de suas frutas?

    ando procurando sua chama
    que sempre se anuncia e ousa fugir,
    qual o fogo-fátuo que some
    tão logo se abre em flor de luzir.

    porque és o morro, a fauna e a flora
    e teus olhos de vento
    me seguem e sopram em todo lugar.
    e na inconstância de tua transparência
    tens quase a essência do mutar do luar.

    onde se escondem teus olhos?
    em que fluido caminho
    entre a víscera e a intenção?

    onde se encontram seus olhos?
    em que inexata mistura
    entre redenção e perdição?



    falcon 140408

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    30 Março 2008

    saudade

    saudade

    palavra
    perdida em alguma língua
    ilhada em algum corpo


    falcon 300308

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    para onde marcham,
    resolutas,
    estas nuvens em seus batalhões;
    confiando firmes
    no sabor dos ventos
    e de sua direção?

    sobrevoam cidades e campos,
    sublimes,
    observando os riscos
    que traçamos ao chão

    seguem o borrão

    imperfeito
    inexato
    nosso tosco projeto
    em contínua reformulação.

    para onde marcham
    eternamente
    as nuvens e seus canhões?

    irrevogável e resoluto,
    olhos firmes ao chão,
    segue lá meu coração.


    falcon 300307

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    24 Março 2008

    vertigem

    iiiiiiiiiiiiir
    iiiiiiiiieiiiiit
    iiiiiiiiviiiiiiie

    iiiiiiieiiiiiiiiiv
    iiiiiitiiiiiiiiiiie
    iiiii-iiiiiiiiiiiiir
    iiiiriiiiiiiiiiiiiiit
    iieiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
    viiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiig
    iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiem

    falcon
    240308

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    13 Fevereiro 2008

    um poema

    nunca o verão pareceu tão frio
    e o azul do seu céu tão atonal
    as arvores só respiram
    não cantam
    e reconheço o lagarto
    que pula no muro sem suas patas
    - ainda vive.

    o sol, este astro
    que ao amanhecer
    nasce em cada coisa que brilha,
    neste dia de desvelamentos
    parece ter composto
    uma luz de velas tristes
    - o mundo se compadece.

    sento na calçada
    escrevo um poema
    e aguardo que um novo dia nasça
    em outra estação
    em outros tons
    em outras patas

    uma hora sempre sucede outra
    e, neste peito que já conhece
    tão bem os caminhos do sangue,
    quase sempre tudo se renova
    - embora tudo soe tão eterno.


    falcon 130208

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    27 Janeiro 2008

    todo o mar
    é um imenso pulmão
    gasta o dia inteiro num sopro
    e a noite toda numa inspiração.

    falcon - 260108

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    19 Janeiro 2008

    o menino (canção para V.)

    te encontrar foi
    reencontrar-me.
    te conhecer
    redescobrir-me.

    o menino que eu jurava morto
    em minhas vísceras,
    à luz de tua imagem,
    de teu sorriso,
    sorriu
    e me perguntou por onde andava.

    desta pergunta
    brotaram outras,
    como uma semente que trança galhos
    e galhos que enovelam sementes.

    e todas as respostas
    num segundo
    encontraram suave caminho
    em teu nome de vinho;

    abrigo
    em tua boca de vime;

    refração
    no âmbar dos teus olhos.

    como as perguntas
    nem sempre encontram carne nas palavras
    - se é que estas carne a têm -
    foi no texto de tua pele
    que transcrevi minhas respostas
    e foi com mãos de criança
    que lhas esculpi.

    hoje o menino brinca
    de novo em meu corpo,
    bagunça minhas tripas,
    toca flauta em meus vasos
    e lambe os outros órgãos.

    o garoto
    hoje dança seus ritos em minhas pernas
    com sua linguagem
    quase universal,
    quase intraduzível.

    e eis que vejo,
    de repente,
    como é gostoso
    vê-lo vivo novamente em mim.
    vejo como é gostoso
    recriá-lo a cada dia em ti.

    falcon 190108

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    23 Dezembro 2007

    I


    a costura cega
    o dito nó cego
    quando abraçados
    nós não vemos nada

    II


    quase repeti
    um milhão de vezes
    aquela palavra
    dita ao acaso

    da palavra amor
    não sabemos nada

    a palavra amor
    este grito incerto
    esta veia farta

    falcon 221207

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    08 Novembro 2007

    a cozinha

    que cozinha requentada é a memória
    temperos falando por todo lugar
    sal a gosto

    suas peças defumadas
    expostas, penduradas

    sua sopa interminável de sentidos
    sempre a mexer
    e acrescer

    que cozinha de vapores é a memória
    panela no fogo, matéria desmanchando

    e nós, dentro dela,
    cozinhando
    e carne a cozinhar.

    falcon 081107

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    05 Novembro 2007

    linda como um parque de diversões
    aportando numa cidade de interior

    enchendo de sorrisos minha boca de criança
    e de esperança meu coração de adolecente

    falcon 051107

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    05 Setembro 2007

    do sonho

    do sonho que mexe,
    em seu grosso caldo,
    a matéria,
    eu quero o sabor das canções.

    quero o devaneio da forma
    que dança
    inexata, inesperada
    inconstante.

    quero o devir
    que vindo se faz
    e me faz sorrir,
    e queima minhas vísceras.

    quero as mãos
    que no baile do barro
    cava o jarro
    e molda o grito da vez.

    quero o poema
    cuja música conta o presente
    e constrói o futuro,
    em seu verso sem letras.

    do saco dos sonhos
    eu quero aquele
    que mexe o grosso caldo da matéria.
    que dela sai, e a ela volta.

    é ele que quero
    e nenhum outro.

    falcon 050907

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    09 Agosto 2007

    A pedra e o deus (sob tema de Cícero C.)

    Cheguei dos corpos altos
    da criação humana,
    onde tudo não é nada
    que não se possa soletrar.
    Onde entes de nobres ares
    ousam chamar-se Baltazar.
    Onde há só ar,
    ___iiihá só ar.

    Cheguei
    com o corpo cansado de esquecer-se.

    E foi pisando nuvens,
    caindo ares
    - céus inteiros mesmo -,
    E provando o balanço dos navios
    equilibrando-se nos mares;

    Foi vendo a areia que escorria pelos dedos
    e pelas frestas das ampulhetas;
    Procurando letras,
    mas tateando traças;
    Que cá pousei
    para conhecer-me em tudo.

    Na trajetória
    que me trouxe a rastos altares,
    re-conheci no toque
    o que me faz, o que sou.

    Pude testar o gosto da língua,
    com suas partes,
    e ver cada canto seu
    emanar inúmeras paixões
    de matizes idas além
    do doce ou do amargo,
    do salgado ou do acre.

    Vi a água brotando da pedra,
    e pude sentir seu gosto de zinco.

    Vi Carbonos que já foram tantos Corpos
    Corpos de tantas Coisas
    forjar aço,
    e do aço
    novos Corpos serem forjados,
    novas Coisas.

    Vi o brilho da forja e
    reconheci na luz,
    na faísca que saltava,
    a extensão da bigorna,
    a energia do movimento.

    Vi a luta incansável dos morros
    em sua busca por magma,
    por mover-se;

    E a fúria renovadora
    nos seus lábios vermelhos,
    no seu sopro,
    no suspiro que libera
    toda a angústia da crosta.

    Cavei veias na terra
    e delas tirei meu sangue;

    E em toda terra que andei,
    vi veias abertas
    tingindo chão
    e sonhos.

    Vi como os transeuntes,
    embebidos de suas doces ilusões,
    tropeçavam os prédios,
    rachavam a cabeça no concreto desalmado,
    e culpavam aos deuses
    a disposição das pedras.

    Enfim,
    percebi como eu mesmo,
    na sombra
    e na soma de tudo,
    de tantos outros,
    havia sido
    a pedra
    e o deus.

    Foi só então
    que pude tocar
    as coisas e não seus nomes.


    falcon
    100807

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    02 Agosto 2007

    o orgão


    Sempre tive a impressão que
    a América Latina
    tem a forma de um órgão:

    Uma fígado
    ou um pâncreas dilatado;
    um estômago
    afastado dos intestinos.

    Um coração que enraíza.

    falcon agosto/07

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    06 Julho 2007

    chuva sobre a américa (a garcia márquez)

    Chove sobre a america latina.
    As pessoas se trancam em seus aposentos e
    quando saem é com a extrema ponderação da necessidade diária.
    Com cautela nos passos que dão,
    no tempo que custam.
    Cautela com o peso da água que cai
    e com o resfriado que vem.

    A chuva recolhe os panos dos varais
    e as crianças das ruas
    com seus papagaios coloridos.

    Homens e mulheres são soterrados
    e levam consigo suas casas, seus filhos
    e os morros em que se seguravam.

    A chuva nos tetos de zinco
    deixa uns tantos mudos,
    outros tantos surdos
    e depois de tanto tempo
    haverá quem amaldiçoe
    qualquer voz
    que não a da gota.

    Chove forte lá fora.
    Há quem chame de ordem dos deuses,
    quem chame de sangue dos que vão,
    quem chame de lágrimas dos que ficam
    e quem chame de chuva,
    esperando que logo estie
    pra por os uniformes a secar.

    facon abril07

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    a fome

    a fome do leão
    é do leão.

    a fuga ou não
    da gazela
    é dela.

    não há nada a se fazer
    não há.

    a fome do homem
    é minha,
    é sua,
    é de quem não come.
    é fome do homem.

    só há o que se fazer
    só há.

    come homem,
    mata a besta em tí.
    só a tí cabe esta tarefa.
    só cabe.

    falcon
    070707

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    30 Junho 2007

    lua cheia

    olha a lua hoje
    como circula bonita no céu
    cheia, explodindo de alegria
    deixou o sorriso discreto pra traz -
    o charme da timidez
    - agora anda completa
    não demora e vai parir
    luz por todo lado

    falcon 300607

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    14 Junho 2007

    impossibilidades

    a impossibilidade
    real e cruel
    de dois morros se tocarem
    é abalada,
    destruida,
    pela ferocidade do magma

    porém,
    não havendo magma,
    quem questionará?


    falcon 140607

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    07 Junho 2007

    há tantas maneiras de descrever tua beleza
    e em ti há tanta beleza a ser descrita.

    há tantas palavras que dariam suas vidas
    para revelar as perfeições de teus detalhes

    e tantos sons que, percorrendo pavilhões,
    despertariam tantas lembranças de tuas formas,
    de teu jeito, de ti.

    há tanto encanto no mundo que parece existir só depois de tua
    presença
    para que alguém possa remetê-lo à tua magia.

    tantas texturas a lembrar tua pele
    tantas cores a imitar teus olhos
    tantas flores a exalar teu cheiro
    tantas frutas a compor o mel dos teus lábios
    tantas doses a reproduzir a embriagues de teu toque

    e mesmo assim,
    tudo não faz senão tocar-te,
    nada te traduz por completo,
    nada decifra tua perturbadora existência
    que às coisas emudece.

    e diante das metáforas,
    dos signos e artifícios,
    largo a pobreza das canetas e palavras
    e é no fundo de tua carne
    que busco a completude do poema.

    falcon 070607

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    03 Junho 2007

    A ciência dos imãs
    não explica teus olhos
    teu corpo, teu sorriso
    teu cheiro.

    Todo conhecimento humano,
    diante da magia que emana de ti,
    se envergonha, senta e chora.

    A força de teu magnetismo
    Transtorna a ordem das coisas,
    Contrapõe apostas e ganhadores;
    Transborda copos de vinhos
    E peitos;
    Desloca sensos, sombras e sonhos;
    Cria atalhos e constrói seres errantes.

    Em ti se explica o acaso
    E o imprevisível.

    para fabíola

    falcon 270407

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    02 Junho 2007

    Soneto à bela foto

    os teus olhos tem a cor dos rios
    castanhos que cortam os morros
    selvagens como suas corredeiras
    e que, do mato que lambe, arranca sua cor

    tua pele, seda, cobre um mundo
    que jamais será abraçado por completo
    e nas partes em que a cada momento me perco
    resta-me apenas conhecer tua nova face

    na tua boca, terreno de laços
    na dobra do bege ao róseo
    encontra-se os limites dos sentidos

    e no toque que corre o rosto, que
    inconsequentemente rompe as fronteiras
    faz-se o divino, e o inexplicável ser.


    falcon 020607

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    21 Abril 2007

    o vai-e-vem das águas
    lambe
    molda a areia que,
    apaixonadamente,
    resiste
    e , com ternura,
    se deixa arrastar

    dita suas curvas
    alisa e sacia suas formas
    para esquecer
    no escuro fundo -
    onde se enrolam algas
    onde se fixam larvas-planejando-moluscos
    - os olhos do mundo

    falcon
    --0407

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    20 Abril 2007

    somos

    Símios que somos.
    Sapiens que somos.

    Seres de soma
    a sondar a senda.

    Sulcos e soros;
    sede e socos

    Sêmen e sombra,
    soma que somos.


    falcon
    250107

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    06 Abril 2007

    nem o preto do café
    solúvel
    nem o branco do leite
    tetra-pak
    nem a democracia da agua mineral
    em fontes naturais de 20 litros
    são capazes de saciar a sede
    deste calor escaldante

    rcta 140307

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    01 Abril 2007

    poema para tí

    parece que eu vi quando o sol se formou
    ele era uma bola
    quente e macia
    que se fazia dentro de minha mão

    enquanto isso
    seus lábios úmidos
    se umedeciam
    ao toque da minha boca

    tudo se criava, brilhava,
    e tudo aparecia,
    com o divino poder criativo
    que só a luz desperta nas coisas

    mas, como a primeira noite,
    que chega sem avisar
    tomando o mundo de escuro
    seu sorriso se apagou
    quando do afastar dos corpos

    na ilha em que me vi
    isolado,
    tudo -
    os homens, a terra,
    as águas e suas canoas,
    as tartarugas e seus ovos
    - tudo me é estranho,
    e na estranheza das coisas
    eu leio o teu rosto

    a cor da sua pele -
    morena
    - anda impressa na areia
    e nos troncos das arvores.
    o som da tua voz
    murmura no burburinho dos ventos.
    o brilho dos teus grandes olhos,
    estrelas compondo o céu nu.

    os olhos tristes
    das tartarugas abordadas
    são meus olhos
    apanhados pelo repentino querer
    apanhados pelo repentino
    e inevitável partir.

    rcta - 090207

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    28 Janeiro 2007

    Somente a morte

    Pra nos livrar desta loucura
    que em nossa´lma floresce,
    que queima nossa roupa, nos consome a carne e nos chupa os ossos.
    Mata nossos domingos e feriados e nos visita os sonhos.
    Mastiga nossa comida e degusta nossa bebida.
    Mede nosso pulso e move nossos pés.

    Que nos põe a torrar no sol, e conhecer diversas luas.
    Que nos faz
    inventar mundos e decepcionar-se.
    Desvelar mundos e encantar-se.
    Descobrir mundos, desesperar-se,
    emocionar-se.

    Provar de todos os venenos e até aprender a gostá-los.
    Destilar seu próprio.

    (As doses cavalares)

    Assustar-se consigo e não reconhecer-se.
    Reconhecer-se.

    Só a morte, amigo,

    Remedia a vida.


    Rcta200206


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    26 Janeiro 2007

    I - A tarde

    Esta tarde
    as palhas dos coqueiros
    e as folhas das amendoeiras dançam
    ao som do teu vento.

    Esta tarde
    os teus olhos tingem
    de verde as árvores
    de negro o asfalto
    e de vermelho o liquido viscoso que gira,
    e gira,
    e gira.

    Esta tarde
    é teu compasso que dita
    o ritmo das ondas,
    a corrente dos rios,
    o coro dos pássaros,
    o passo dos corpos,
    e a velocidade dos carros.

    Esta tarde
    os prédios se prostram
    na espera de contemplar
    tua fugaz presença.

    Esta tarde
    as pichações nos muros
    são anagramas do teu nome.

    Esta tarde
    todas as mentiras e verdades são tuas
    pois tu és dona
    de todas as ruas por onde elas passam.

    Esta tarde
    as pessoas andam
    sem direção
    à sua procura e
    só eu sei o seu caminho.

    rcta - 260107

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    II – A noite

    A noite será

    o borrar dos traços.

    será
    o desfiar das tranças.

    o aceno
    depois do aperto das mãos.

    será
    o sinal verde
    que vem
    depois do amarelo
    que vem
    depois do rubro.

    a noite será
    a triste liberdade dos corpos.

    a noite.

    a noite
    desligará o som

    desistirá da pintura do quadro
    manchando-o com traços
    a esmo.

    amassará o papel do poema
    que habitará o cesto
    junto com tantos outros.

    aa noite.

    rcta - 260107

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    07 Janeiro 2007

    estrelas

    as estrelas que regem
    meu destino e meu humor
    são as que eu desenho
    a caneta
    em minhas mãos,
    contornando as linhas e os calos
    que sua palma veste
    e cria
    a cada dia
    na ação da vida

    rcta - 070107

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    03 Janeiro 2007

    a
    poesia não tem
    solução

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    25 Dezembro 2006

    o tempo (ou a dialética?)

    o tempo
    e suas intempéries
    transformam montanhas de marmore
    em barro.

    que eles dirão de nós
    caro amigo?
    será que seremos reconhecidos
    em nossos finos grãos futuros?

    rcta - 221206

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    20 Dezembro 2006

    a chama insone

    nas ruas as vozes se arriscam,
    murmurando suas tortas vidas;

    no asfalto minhas chinelas riscam
    um esboço de minha dança comedida;

    nos quartos os corpos atiram,
    em todos sentidos, seus suados sentidos;

    nas salas:
    reina a etiqueta.

    mas não se engane,

    pesos de papéis
    não segurariam as palavras

    e travas nos bordéis
    não apagariam a chama insone

    embora a veia farta
    sinta a razão, quando esta se consome

    e o sonho que alimenta o homem
    sinta o peito, quando este infarta,

    os sonhos pesarão as carnes
    nos ossos, onde houver ser,

    e sempre haverá alguem a ceder
    à boca lacrada que se rompe.

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    18 Dezembro 2006

    a c o r d a

    I

    acordo a cor dos meus pesadelos

    entre o fiel tato
    e o desmantelo
    entre os passos
    e o caminhar

    na escuridão do meu quarto
    reso a ladainha das horas
    como o corpo que me devora
    peso os novelos
    contra a lamina de barbear

    acordo a cor dos meus pesadelos
    e busco na rotina do medo
    o motivo de acordar

    -duvido-

    acordo a cor dos meus pesadelos
    e mal finjo que percebo
    que o relógio parou de contar

    a corda pesa sobre a cabeça,
    segue o sino que relampeja,
    dar corda é o critério de acordar


    II


    ou a corda nos consome
    nos degusta o nosso nome
    e nos põe a pendular

    ou consumimos a corda
    desvelando a hora morta
    despertando a cada olhar


    III


    segue o sono, segue o sino
    me lembrando o menino
    que não se deixava cansar

    segue o peito que lampeja
    me lembrando da certeza
    que não se deixava enganar

    segue o fardo, segue o feno
    me lembrando do veneno
    que me espera ao vacilar


    RCTA - 191206

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    17 Dezembro 2006

    As peças do jogo

    Os corpos se atraem porque são corpos

    As mentes se escolhem

    As mentes olham os corpos

    Os corpos agarram as mentes

    RCTA - 051006

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    16 Dezembro 2006

    palavras

    as palavras são apartamentos pré moldados
    pequenos demais para abarcar o peito e seu entorno

    os peitos são palavras
    que tropeçam sem ar

    a ponte que leva o peito à fala
    é um resistor que tudo talha
    -------
    as palavras são beijos
    de peitos nunca correspondidos

    RCTA - 261006

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    12 Dezembro 2006

    I

    eu danço
    eu nasço
    eu traço
    o passo
    da vida amarga

    II

    vida amarga
    ávida dama amarga

    amar a vida
    é amargar a dama

    assumo a chama
    e gozo o queimar

    sei que a expressão do amargo
    é esculpido no esporte do paladar

    abstraio o bem e o mal
    por 15 microssegundos por vez

    um tanto menos talvez
    alternando ser e não ser

    provando o seio da fruta
    e construindo meu próprio corpo

    amorfo


    RCTA - xx1106

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    paradoxos (soneto imperfeito por acaso)

    os paradoxos que tangem ao nosso homem
    é dos que escrevem nos dentes
    que dilatam barrigas
    e enxugam estômagos

    os paradoxos que se escrevem em nosso homem
    estão marcando os pulsos e os braços
    e está presente em cada miosina/actina
    de cada musculo que compõe o ato

    estes paradoxos
    se dilatam no labor febril das manhãs e das noites
    e não cabem nas bocas

    o que em tantos, se sente na carne
    para uns poucos, resta apenas
    o moldar impreciso das palavras

    RCTA - 031106

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    dialética (ou reminiscências, ou aquela que passou e não foi...)

    a lápide está posta,
    o corpo enterrado,
    mas a alma do defunto
    ainda ronda seu cercado.

    RCTA - 121206

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